As crónicas de um cara pálida
Quando ele me dirigiu a palavra no idioma de Cervantes eu encarei tudo com a maior das naturalidades porque afinal de contas sou um tipo escuro latino sul americano e também porque estavamos na internacional Amesterdão de todas as etnias numa manhã cinzenta escura húmida de uma primavera que teimava em não aparecer sentados ambos numa estação de bus inverosimel à espera de uma salvação de muitas rodas que nos levasse a um outro mundo que pertence a um outro universo e que acreditem ou não era-nos bem conhecido e o hablas español saiu um pouco forçado de um homem pequeno atarrecado escuro de olheiras cavadas pela vida e a cabeça redonda e imensa desproporcional ao corpo franzino e miúdo que segundos antes abandonara uma velha decrépita do norte com o cabelo estranhamente pintado de purpura papaeira descaída até ao pescoço nariz adunco e olhos de um azul mortiço e que chorava ao acenar para o grande lagarto castanho que já se encontrava em movimento e que segundos antes engolira-nos e era a minha miúda disse-me já em português porque minutos antes eu explicara-lhe que viajava para Portugal, também eu, respondeu por sua vez, ao que eu pensei, puta que pariu lá se vai o meu sono já que vinha de directa sem ter encontrado a cama embalado por todas as drogas e reminisciências de Amesterdão com putas e alcool à mistura e um último abraço de um amigo de sangue que foi visitado por um viajante cara pálida que possuía um passaporte cinco estrelas europeu com visto norte americano que lhe abriu todas as portas deste velho continente que estão encerradas a homens e mulheres bem mais claros do ele e um até logo nunca chega, nunca nos satisfaz, nunca é suficiente porque a saudade nasce quando o irmão de sangue dobra a esquina e atira o último sorriso de adeus.

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