Perdido na rodóvia
... e depois de vinte horas de sono e de dor entrecortados por visões de uma noite negra e chuvosa de nuvens pesadas a vomitar raios e coriscos que explodiam no ar num estrondo como uma guerra fratricida a manhã apresentou-se calma e límpida com o sol a despontar tímido mas quente pintando a aurora de laranja vermelho azul turquesa e assim que pude ler os reclames luminosos de néon vermelho que ainda não se tinham apagado das distantes casas de putas que pontuavam ao longe na planície fi-lo em espanhol pelo que quando apeamos numa qualquer paragem para descansar pude finalmente beber um café minimamente decente comprar uma redonda, apetecível e saborosa tortilha de batata que após comer metade guardei o resto para a viagem porque saíra de Amesterdão somente com um maço de cigarros e uma mão cheia de erva que enrolava em papel de mortalha king size e o fumo que inspirava e expirava para o ar tépido do fim de manhã transformou-se numa miragem, num fantasma e depois num corpo sólido de um homem alto e incrivelmente magro com o cabelo que lhe restava da calvície acentuada desgrenhado, barba de quatro ou cinco dias, face oval estreita seca de ossos proeminentes, olhos pequenos escuros cansados, nariz grande e pele queimada pintada pelo mercúrio que lhe cicatrizava as chagas que lhe irrompiam da epiderme e era como uma personagem que viajara na história directamente vinda do vale dos leprosos e que não tinha sido salva pelo sangue de Cristo e que envergava um casaco de militar gasto sujo puído de cor esverdeada, calças de fazenda pretas muito grossas e botas de trabalho da costrução civil e à pergunta dele posso fumar eu respondi espera um pouco porque aquela boca cancerosa de dentes amarelos castanhos apodrecidos escondiam uma sentença de morte e depois de fumar cerca de metade do charro passei-lho para a mão suja e magra de dedos raquíticos que o seguraram com sofreguidão como quem passa um testemunho de verdades insondáveis pelo que ele percebeu e sentou-se ao meu lado no lancil do jardim e atirou para o ar com voz fina e aflautada um é a vida, é a vida respondi eu abrindo-lhe assim caminho para a confissão, fui apanhado, começou depois de inalar o fumo, na fronteira entre a Holanda e a Alemanha com três kg de cavalo na mala do carro, eu ia a conduzir e o turco que seguia a meu lado vai apanhar dez anos, e tu como te safaste, perguntei desconfiado, pura sorte respondeu, não trazia documentos, deixei a carteira em casa, explicou num sorriso aberto mostrando de uma vez por todas a boca doente, e mandaram-te para Portugal, perguntei ainda mais desconfiado, extraditaram-me, assentou, não estava a trabalhar, vivia em Hamburgo com um irmão e ganhava a vida no tráfico por isso não tinham nenhum registo meu, e é melhor expulsar o lixo para onde ele pertence, pensei eu, estive cinco dias preso, continuou ele e depois deram-me um bilhete e meteram-me na camioneta sem um centavo no bolso, não como vai para dois dias, concluiu pesaroso com a face carregada de uma tristeza fingida, por acaso não tens uma moeda para tomar um café, pediu com a esperança a raiar-lhe nos olhos, toma duas e come, pronunciei enquanto enquanto lhe passava o dinheiro para a mão, obrigado murmurou ao levantar-se caminhando depois apressadamente na direcçãodo pequeno restaurante extasiado por ter enganado mais um otário com a sua bela história.

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