Despertar
... Despertei em sobressalto numa madrugada que já se anunciava com o sol a despontar atrás das grandes construções de uma cidade que era banhada pelos raios dourados do astro que como um ciclo fechado renova a vida dos seus filhos adormecidos e rígido pelo frio de uma noite solitária mal me pude mover e com o corpo entorpecido pelo cansaço vislumbrei ao longe esse irmão de sangue que inquieto buscava-me com um olhar perdido no meio de uma multidão que paulatinamente acordava e saía do seu refúgio nocturno para a clarividência do dia realidade que se renovam como que por magia porque a Terra roda sobre si mesma e o passar do tempo é inexorável como um recurso não renovável que na mais completa ingenuidade e ignorância usamos gastamos abusamos sem a mínima percepção do seu fim e da sua destruição certa e é com as certezas de uma evolução que nunca existiu, de que é uma ilusão de óptica, que consiste numa mentira forjada na fogueira da vaidade que eu com dificuldade levo os dedos á boca e assobio com a plena força do desespero e o lamento que nasceu nos meus lábios percorreu o jardim, acordou a quietude, assustou os pássaros chilreantes, ecoou nas paredes maciças da floresta de pedra e penetrou agudo nos ouvidos desse meu irmão de sangue que de imediato reconheceu o lamurio e caminhou na direcção da sua proveniência com um passo rápido e lesto enquanto eu já desperto desaperto o nó que me ligava á mochila para assim me erguer como um homem, para abandonar toda a rejeição que uma alma pode comportar, para estar preparado e ser digno desse abraço que esse irmão de sangue me deu assim que me encontrou.

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