Da noite para o dia
… porque de todos os dias este é o primeiro. Olho-o com a inocência de uma criança e descubro-o quente, denso e abafado.
O dia veste-se de vermelho rubro de um sol que lentamente se esconde, traz sobre os ombros uma capa de azul celeste de um céu que se transforma, e tem desenhado no peito pequenas aves migratórias que bailam no ar a dança da pura sobrevivência. Os habitantes do dia descem do nada e sobem para lugar nenhum. Num processo lento, pastoso e reflectido, recebem da luz um último adeus, abraçam carregados de saudade um fim antecipado, vertem uma lágrima que se extingue assim que cai na esterilidade do pó solto.
Alugo um quarto num Hotel America. Uma cama exiguamente encarcerada em quatro paredes brancas. Os lavabos são no exterior, comuns. Num dos cantos do quarto, junto á janela, uma escrevaninha e uma cadeira onde me sento e esvrevo os relatos do dia. Encho-me de poesia, engulo-a sem a mastigar.
Falo do Deus e do diabo, assumo como certa a vida e amorte, carrego nos meus braços o cadaver obsoleto do amor. Depois busco a paixão por todas as coisas. As linhas são imperceptíveis, o sentido anónimo, a coerência simplesmente desconhecida.
Como da noite para o dia saio incolume para o exterior. No quarto deixo tudo o que me pertence. Farto como uma criança amamentada oblitero o jantar e caminho através dessa noite prematura quente e cálida como o peito nú de uma mulher. Anseio a noite, penso assim que me perco numa pequena praça que num repente se abriu no emaranhado de vielas e ruas e becos que separam a vida e a posse e a história de um novelo de gerações. Escolho uma das vielas ao acaso e continuo a marcha.
Vejo-me claramente a entrar num pequeno, escuro e bafiento bar de arcadas de pedra escrupulosamente polidas. Subo três degraus, empurro uma porta de madeira e ao entrar sou imediatamente fulminado pelo o olhar de uma mulher de meia idade. Sento-me ao balcão e, após uns instantes de hesitação do empregado do Bar, é-me servida uma cerveja. O líquido amarelo, quente e morto, acelera-me as entranhas. Bebo-o de um trago e peço outra. A mulher de meia-idade continua a mirar-me; acende um cigarro e passa a língua pelos lábios enquanto expira o fumo. Entretanto ouço o som seco de um fundo de um copo cheio de cerveja a bater no balcão. Olho o empregado do balcão que me responde com um pequeno rosnar. Depois vira-me as costas, corre o balcão com um pano húmido e para exactamente em frente da mulher de meia-idade. Olha-a com algum desprezo. Depois agarra-lhe com a mão esquerda a face de carnes pendentes, puxa-a para si e dá-lhe um beijo na boca. O momento é prolongado pela força que o homem empreende com a mão esquerda contra a ineficaz resistência da mulher que não se consegue libertar.
Como da noite para o dia saio incolume para o exterior. No quarto deixo tudo o que me pertence. Farto como uma criança amamentada oblitero o jantar e caminho através dessa noite prematura quente e cálida como o peito nú de uma mulher. Anseio a noite, penso assim que me perco numa pequena praça que num repente se abriu no emaranhado de vielas e ruas e becos que separam a vida e a posse e a história de um novelo de gerações. Escolho uma das vielas ao acaso e continuo a marcha.
Vejo-me claramente a entrar num pequeno, escuro e bafiento bar de arcadas de pedra escrupulosamente polidas. Subo três degraus, empurro uma porta de madeira e ao entrar sou imediatamente fulminado pelo o olhar de uma mulher de meia idade. Sento-me ao balcão e, após uns instantes de hesitação do empregado do Bar, é-me servida uma cerveja. O líquido amarelo, quente e morto, acelera-me as entranhas. Bebo-o de um trago e peço outra. A mulher de meia-idade continua a mirar-me; acende um cigarro e passa a língua pelos lábios enquanto expira o fumo. Entretanto ouço o som seco de um fundo de um copo cheio de cerveja a bater no balcão. Olho o empregado do balcão que me responde com um pequeno rosnar. Depois vira-me as costas, corre o balcão com um pano húmido e para exactamente em frente da mulher de meia-idade. Olha-a com algum desprezo. Depois agarra-lhe com a mão esquerda a face de carnes pendentes, puxa-a para si e dá-lhe um beijo na boca. O momento é prolongado pela força que o homem empreende com a mão esquerda contra a ineficaz resistência da mulher que não se consegue libertar.
Volto-me para o fundo do copo e testemunho pequenas bolhas de gás lentamente a subir o líquido para se extinguirem no nada.

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