Cigarros sem Filtro
.... que leva no seu íntimo a promessa de um paraíso distante onde a cada segundo é possível inalar o perfume de todas as liberdades, descreveu-me um estranho homem de dentes estragados, corpo sofrido e rosto cansado, foi para lá que eu fugi quando me deram a primeira precária, sussurrou-me no exacto momento em que me passava para a mão a razão do seu sustento, serás obrigado a andar umas horas, concluiu assumindo a expressão de um sábio, mas vale a pena, atirou assim que desaparecia no mistério de mais um negócio;
talvez encontre a salvação no corpo de uma mulher, pensei enquanto descia as íngremes e estreitas ruas dessa Cadiz histórica que se aperta num abraço de muralha, aqui o sol não nos banha, reflecti ao olhar para o interior das casas através das portas e janelas que se encontravam abertas para o exterior, muito facilmente poderia ser mais um cidadão deste Sul, assumi ao reconhecer todas as curvas, cruzamentos, edifícios e jardins dessa urbe de muitas histórias, também ela me reconhece, senti quando as suas gentes me olhavam com uma expressão cúmplice;
depois entrei num pequeno café onde somente homens velhos batidos pela vida descansavam sentados em velhas cadeiras forradas a napa vermelha bebericando com uns lábios trémulos o bordo de um copo de cerveja gelada, nos dedos fortes e ossudos de outros trabalhos a marca indelével da nicotina dos pequenos cigarros sem filtro que eram acesos uns atrás dos outros;
também eu pedi uma cerveja e a conversa, que tinha sido interrompida com a minha inusitada chegada, foi imediatamente retomada, falavam de quê, apurei o ouvido, de histórias de mar e de terra e de luta e de sangue e de conquista ou simplesmente de morte, falavam como se eu não fosse um corpo estranho, um forasteiro, um desconhecido, alguns sorriam na minha direcção no momento em que mais uma narrativa era terminada, buscavam a minha aprovação, depreendi, claro que aprovo, anui como resposta, que poderia eu fazer para além de mostrar a minha gratidão, no seio de velhos ansiões o meu conhecimento era minimo, quase inexistente, portanto cobri-me com o manto do silêncio, acendi um pequeno cigarro sem filtro, também nos meus dedos nasceram pequenas manchas de nicotina...

2 Comments:
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Ando distante das folhas em branco.
Aquelas escritas me alimentam.
Escreva sempre para que eu possa carregar plumas que sejam.
Acima, a ausência das palavras.
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