Redenção
... quando sentado na areia dura molhada compacta dessa praia de todas as irrealidades, porque naquele local, disse-me uma vez um grande amigo, não se é capaz de pensar em coisa alguma, apenas a simples projecção do mar no nosso olhar é o suficiente para nos encher completamente a alma, sim, anui nesse futuro incerto, nessa Amesterdão de todas as etnias e dificuldades e no entanto, quando uma pequena, uma quase imperceptível onda desse Mediterraneo de todas as fronteiras me beijou as pontas dos meus pés consegui reflectir, meu bom Deus, como fui capaz, e nesse momento o arrependimento tornou-se corpóreo, uma entidade viva, susceptível de ser visto e testemunhado até pelos mais incautos, culpa tua, disse-me entre dentes, não passas de mais um idiota, acabou por concluir após fechar o pequeno livro da minha vida e desaparecer no seio de uma multidão;
o melhor será entrar mar adentro, decidi, nadar um pouco, esgotar-me, deixar que a frescura das águas me desperte desta lassidão;
mar alto, como cheguei aqui, questionei petreficado de medo quando ao longe vislumbrei pequenos espectros de homens mulheres e crianças a pulular na orla da praia, a falésia no momento pareceu-me infinitamente pequena;
o mais aconselhável será boiar um pouco, descansar, reunir as forças suficientes para o regresso a terra;
o céu intensamente azul, nem uma nuvem, por mais passageira que fosse, nada, o vazio, depois, finalmente, algo, uma gaivota lá no alto a aproveitar os ventos quentes soprados de África, descansa como eu, concluí, estará também ela cansada da vida, interroguei para o alto, já chega, volta para terra;
esforço imenso, desumano, esgotado, aproveito o pequeno balanço do ritmo do mar para chegar a terra firme, ofegante, de respiração intercortada, sento-me novamente na areia dura molhada compacta, o tempo passa, devagar, devagarinho, quase parado, mas os meus pensamentos voltam a clarear, a névoa dissipa-se, meu Deus, como fui capaz, tornei a proferir, o teu problema, sibilou-me a lucidez ao ouvido, o teu problema, voltou a repetir, consiste no facto de teres conduzido a tua vida como um suicida sem te precaveres, sem te importares com o quer que fosse, mas quando sentiste o toque frio do cano da arma na têmpora, descobriste que não passas de mais um covarde, acusou-me instantes antes de se diluir nas lágrimas de uma criança que viu o seu brinquedo perdido na lonjura das grandes águas;
não, resisti, nem tudo está perdido, ainda posso ser salvo, o tempo ainda me resta, Deus, salva-me, roguei, e fechei os olhos;
quando os abri, a praia quase deserta, o sol a pôr-se, a noite a chegar, algum frio na minha pele queimada, salva-me, voltei a pedir, e o sinal da minha redenção chegou na vertigem de uma onda que se elevou no ar como um sorriso;
salvo, rejubilei, Deus existe, vive no mar...

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