Wednesday, February 15, 2006

Abandono

... ou na Terra, no ar, em todo lado, ou simplesmente na profundidade do meu olhar vítreo que relecte no espelho dos lavabos de um vellho bar de Estrada o desespero desse homem barbado de cabelos longos e desgrenhados que podia passar por um Cristo, digo-lhe como uma revelação, se pelo menos possuísses a coragem e a vontade de esperimentar os horrores da crucificação, mas não, impossibilidade absoluta, jamais serias capaz de voar tão alto na direcção das Alturas e de lá gritar um Eloí, Eloí, lema sabactaní, para depois expirar na mais completa serenidade de quem detém o conhecimento, de quem testemunhou a verdadeira natureza de todas as coisas, de quem, ao levantar a ponta do véu, descobriu o corpo nú desse Deus que nunca ninguém viu ou conheceu as formas e contornos, aspecto ou cor, mas que, garantem-nos uns e outros, tem a nossa semelhança, ou nós a dele, ou que, asseguram-nos os mesmos, ama com um amor sem limites a mais perfeita das suas criações porque a eles lhes deu o poder do livre arbítrio de poderem caminhar segundo as suas ambições e necessidades, mas basta de tanta religiosidade, recrimino-me, uma velha beata, ratazana de sacristia estaria com toda a certeza menos melindrada após aspirar os perfumes do divino, lava a cara, porque está suja, enxuga os olhos rubros de sal e sai para o exterior onde sentado numa esplanada aberta para a noite quente do Mediterraneo com uma cerveja fresca e viva que irás beber de um trago o teu companheiro de viagem, amigo de uma década, te espera pata te dizer, com um malandro sorriso nos lábios, parece-me que vais ficar só, como assim, perguntei eu, telefonei à minha mulher, tenho que ir;
noite calma, de despedida, para onde irás tu, questionou-me passado horas, a mesa vestida de copos vazios, dias atrás conheci um tipo, respondi, indicou-me um lugar, é para lá que eu vou...

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