Abandono
... ou na Terra, no ar, em todo lado, ou simplesmente na profundidade do meu olhar vítreo que relecte no espelho dos lavabos de um vellho bar de Estrada o desespero desse homem barbado de cabelos longos e desgrenhados que podia passar por um Cristo, digo-lhe como uma revelação, se pelo menos possuísses a coragem e a vontade de esperimentar os horrores da crucificação, mas não, impossibilidade absoluta, jamais serias capaz de voar tão alto na direcção das Alturas e de lá gritar um Eloí, Eloí, lema sabactaní, para depois expirar na mais completa serenidade de quem detém o conhecimento, de quem testemunhou a verdadeira natureza de todas as coisas, de quem, ao levantar a ponta do véu, descobriu o corpo nú desse Deus que nunca ninguém viu ou conheceu as formas e contornos, aspecto ou cor, mas que, garantem-nos uns e outros, tem a nossa semelhança, ou nós a dele, ou que, asseguram-nos os mesmos, ama com um amor sem limites a mais perfeita das suas criações porque a eles lhes deu o poder do livre arbítrio de poderem caminhar segundo as suas ambições e necessidades, mas basta de tanta religiosidade, recrimino-me, uma velha beata, ratazana de sacristia estaria com toda a certeza menos melindrada após aspirar os perfumes do divino, lava a cara, porque está suja, enxuga os olhos rubros de sal e sai para o exterior onde sentado numa esplanada aberta para a noite quente do Mediterraneo com uma cerveja fresca e viva que irás beber de um trago o teu companheiro de viagem, amigo de uma década, te espera pata te dizer, com um malandro sorriso nos lábios, parece-me que vais ficar só, como assim, perguntei eu, telefonei à minha mulher, tenho que ir;
noite calma, de despedida, para onde irás tu, questionou-me passado horas, a mesa vestida de copos vazios, dias atrás conheci um tipo, respondi, indicou-me um lugar, é para lá que eu vou...

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