Thursday, March 03, 2005

Manhã de Destroços

... para voltar a acordar beber do amargo elixir de consciência dos dias e noites que se sucedem como que ritmadas pelo uma insólita realidade kafkiana de sonhos improváveis na segurança de um quarto exíguo estreito escuro soturno desarrumado com mochilas escancaradas para o ar pesado da clausura e sacos-camas derramados em cima de uma grande velha e carcomida poltrona de couro castanho como lava incandescente de um vulcão tão antigo que me fez recordar a própria criação de uma idade intemporal e que desce lentamente arrastando consigo o mundo e a sua hora final e onde estás perguntei exausto ao espectro do homem que lânguido lutava no interior de uma cama que ocupava quase a totalidade do quarto, em que dimensão vives, voltei a inquirir ao corpo invisível enquanto afastava a cortina de cor vermelho vivo da única janela do quarto que funcionava como a escotilha de um grande navio tranâtlantico podendo assim vislumbrar um grande prédio em ruínas de muitas divisões solitárias votadas ao abandono com mobílias de sala de estar apodrecidas decrépitas, retretes defecadas imundas e cozinhas engordoradas de moscas e ratos de olhar ameaçador e ainda sem as forças necessárias para me erguer do meu leito de morte estudei minuciosamente as paredes deste aposento inverosímil que ao receber a luz exterior filtrada pela cortina de cor sangue vivo adquiriram tonalidades de cor púrpura como uma névoa indistinta que certo dia foi a musa e a deusa de outros poetas que entoaram a plenos pulmões com a força de um milhar de volts esse hino de espiritualidade e após esse anjo vestido de veludo púrpura berrante criar mais um hino no ventre da sua dama elétrica fodendo-a com a violência de um milhão de espasmos desapareceu, não sem antes me ensinar a própria experiência, numa grande fenda que se abriu na parede para a sua passagem deixando atrás de si a doce melodia dos seus acordes e a revelação da sua poesia.

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