Animais sem alma
... e depois de este poeta abandonar essa Amesterdão de todas as etnias e dificuldades onde tudo é sordido, repugnante, inconcebivel; depois de se ter despedido desse irmão de sangue vendo-o a desaparecer na penumbra escura da massa urbana; depois de uma viagem de muitas horas e de todas as paisagens possiveis; finalmente chegou a esse paìs de caras pàlidas disfarçados de tez escura e cultura mediterranêa e sentiu o sol quente das suas recordações e visitou o oceano azul do seu contentamento e respirou o ar lìmpido de um paraìso esquecido e apòs um grande banquete de famìlia e amigos dedicou-se a desconstruir peça por peça, bloco por bloco, estrutura por estrutura essa religião mundial criada pelo crucificado que viu a sua obra, o seu legado, a sua herança ser tornada uma realidade que transformou vidas, famìlias, povos, mundos mesmo depois de morto porque os seus olhos foram, são e serão sempre omnipresentes mesmo quando essse poeta se escondeu refugiou num jardim luxuriante de gigantescas àrvores de grossos troncos castanhos e nodosos e folhagem verde e densa que fornecia sombra a legiões de ninfas semi-nuas de pele lisa, firme e sedosa que pululavam de cabelos negros compridos como chamas de um fogo escuro que lhes caìa sobre uns ombros descobertos de todos os complexos e pecados e no entanto no olhar de esse poeta renascido de outras vidas que ficaram encerradas num passado longìnquo sò residia a perda irrevogavel de um Deus paterno, amigo, conciliador de todos os fenòmenos, provedor de todas as necessidades, antìdoto de todos os venenos, cura de todas as doenças, felicidade de todas as misèrias, salvador de todas as desgraças porque este homem pegou na génese de todas as religiões e subtraiu-a à sua e quando tudo tentou abarcar viu escorrer entre os dedos a crença inabalavel nesse Deus e quando as abriu viu-as despidas de qualquer dogma, fè, crença ou religiosidade porque somos animais, concluiu, simplesmente animais sem alma que beneficiaram da pura e lìmpida teoria matemàtica das probabilidades, porque aconteceu como poderia não ter acontecido, è tudo uma questão de coincidências, voltou a concluir esse poeta, coincidências felizes que levaram a que uma mão cheia de cèlulas se transformasse com a passagem inexoràvel do tempo, como o bater de um relògio por criar, como o estrondo incansàvel do bater de ondas desse mar imortal em macacos com sorte, seres criados do quase nada que desenvolveram um enorme cérebro com a desculpa da sobrevivência, que descobriram a linguagem com o intuito da passagem do conhecimento, que transmutaram-se de necrofagos em predadores e conceberam dinvindades e mitos e ritos e mistérios para uso pessoal para sobreviverem, para conquistarem o mundo...

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