Thursday, December 22, 2005

O Medo

... para o medo, para o agora, para a solidão, para o futuro certo almejado profetizado redigido na mente dessa criança de alucinações faceis, o medo da morte, da vida, do simples movimento natural de todas as coisas, o medo de mim, o medo de ti, o medo do mundo, da mulher, do amor, de Deus, revejo-me nessa visão, portanto foi cumprida, portanto cumpri e portanto atravessarei esse deserto enfadonho batido conhecido, sou eu, sempre fui eu porque quando nasci tinha quatro anos de idade e o medo intrometeu-se entre mim e a doce paz da infantilidade e por essa razão tornei-me no que vi, sem o desejar, sem me esforçar, sem o querer, a inercia e a perguiça sempre foram companheiras minhas que dispostas a meu lado direito e ao meu lado esquerdo juntos perseguiamos essa sombra que nas paredes escuras dos velhos prédios de suburbio nos fugia, de noite, porque só de noite nos aparecia, embriagada de ambição, inchada de despeito, carregada de exaltação, vergada de loucura, e era o desejo, esse elixir de veneno que tomavamos, essa porção que nos queimava as entranhas e aguda era a dor, tão forte que as minhas companheiras partiram, abandonaram-me, pobres criaturas, não foram criadas para suportar a dor, o desespero e revogaram a promessa de amor eterno e deixaram-me só, na calçada da vida, na rua do desespero, no seio da loucura, na companhia da escuridão, amigo dos ecos dos latidos dos cães que furiosamente protestavam a minha presença, de novo o medo, de novo...

1 Comments:

Blogger Aquela said...

O medo é o único que me faz frágil, impotente e até dissimulada.
Quanta claridade num só parágrafo.´
Obrigada pelo comentário e pelo prazer de poder te ler.

January 1, 2006 at 5:23 PM  

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