Viagem ao Oriente
...caso contrário és condenado ao esquecimento trabalhos forçados tortura e morte e é por essa razão que este hoemem exausto pela vida abandona as visões proféticas de uma poesia opaca e esbatida e resolve dedicar-se exclusivamente às descrições simples de um quotidiano exasperante e aborrecido de um viajante que depois de horas de incerteza e espera encontra um amigo que o leva a uma estação ferroviária onde evadida do panteão hindu uma deusa de contornos voluptuosos vestida de diamantes pérolas e outras pedras preciosas com os cabelos escuros escorridos e sedosos que se prolongavam até ao fundo das costas e com os pés delicados ornamentados com pequenas campainhas douradas que tiniam ao mínimo movimento e mãos finas e gentis que docemente rasgavam o ar dançava ao som de uma cítara que tinha o poder de para o tempo abrindo na minha direcção um sorriso de sedução para que eu a amasse e ensinando-me por intermédio de telepatia todas as posições e contorções dessa ciência ancestral de prazer e sexo e completamente inebriado pelos licores do seu corpo que exalavam o perfume das mil flores do jardim luxuriante de templo onde habitava eu entro numa carruagem de estofos laranja vidros duplos e conforto de primeiro mundo que me transportou para um subúrbio cinzento parado e moribundo que recolhe e abraça todos aqueles que a tez mais escura faz recuar para a periferia porque mantenham-se unidos se querem sobreviver e depois de alguns minutos de viagem deixamos a carruagem no momento exacto em que se abateu sobre nós uma chuva miudinha que não dava tréguas aos transeuntes que fugiram em todas as direcções deixando-nos a sós a mim e ao meu amigo com um estranho compatriota que detinha uma promessa de habitação e abrigo mas que se encontrava longe do local onde estavamos pelo que fomos obrigados a subir para um autocarro que nos deixou depois de meia hora de questões e interrogações das quais nenhum dos três possuia a coragem de formular em voz alta à porta de uma enorme construção com mais de vinte andares de altura mais triste que o próprio tempo, mais escura do que a pele das gentes que o habitavam, mais inverosimil do que esta história...

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