Fronteira
... o estranho prazer de uma fronteira com homens e mulheres e vidas e ambições e sonhos e rejeições e pesadelos e o encarceramento e a fome e o desespero e a vergonha e a impotência e por vezes, demasiadas vezes a morte porque tudo se encontra nessa pequena extenção de mar, nessa grande fronteira do mundo e continuem a bater, continuem a bater nas muralhas dessa Europa Fortaleza, lembro-me dessas linhas, do ritmo, da luz e da sonoridade quando chaguei ao ponto sul do velho continente, ao fim deste mndo, ao inicio do abismo, ao contacto com essas águas azul turqueza de ondas calmas desconfiadas capazes da morte e ao longe vislumbro uma coluna de Hércules, castanha deserta pedregosa estéril desabitada e quente, muito quente, com o calor de Africa, e perto, onde me sento, a outra coluna, a que me suporta sustenta encanta e supreende com gente estranha que me tocam com olhos turvados de desprezo e bocas molhadas de descontentamento e mentes afundadas em ilusão e corpos envoltos de desejo seguidos por cães amistosos e doces que farejam no lixo a possibilidade de uma próxima refeição e dejectos humanos e roupa suja abandonada esquecida e palmeiras vergadas ao calor e o ar parado do meio dia e o silêncio do abandono e o sentimento de deslocação e o facto de me encontrar perdido quando exausto procuro por uma sombra não reconhecendo o que vejo nem tão pouco sendo reconhecido por tudo o que estou a ver porque estou na fronteira, reflicto,na terra de ninguém, com os seus clandestinos, esses filhos dessa puta que jamais os pariu mas que os recebe alimenta veste e dá carinho e algum conforto para depois sem lágrimas dor e suspiros os expulsar, estou na fronteira, continuo a reflectir, e onde está o comercio o tráfego e os traficantes e mercadores, pergunto a esse mar calmo assim que me deito à sombra de uma velha árvore de ramos ressequidos, o chão é poeira, debaixo de mim somente as marcas disformes do meu corpo...

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