Quimera Perdida
... e seguindo o rasto desse anjo vestido de veludo cor púrpura berrante abandonei esse apartamento que eu não reconhecia sem o inspeccionar primeiro e frenético saí para a rua com a roupa amarrotada e o rosto por lavar transformando-me assim num espectro que deambulava pelos subúrbios de uma grande cidade europeia de muitas etnias na direcção de uma medina de outros tempos de outras histórias de outras mil e uma noites porque a tez de quem me tocava ao de leve assim que cruzava comigo na rua apinhada era escura de outros continentes, e porque os véus que escondiam com extrema delicadeza os ocultos cabelos negros dessas belas xerazades esvoaçavam por todo o lado como nuvens perdidas no céu azul, e porque os cheiros das cozinhas orientais carregava o ar com a densidade do caril açafrão e pimenta e finalmente porque porque por todo o lado pululava o comércio que nascia a cada porta com a intensidade de um milagre que as cépticas terras do norte nunca aprovaram e de tudo isto eu fui testemunha porque o ímpeto que me levou a abandonar precipitadamente o apartamento não cessou e a adrenalina crescia no meu interior numa ânsia de avançar na conquista do que me era desconhecido já que eu acabara de entrar num reino de sonhos tão diversificados como a quantidade de idiomas que lá se usavam e que a todo o custo eu queria preservar pagando para isso um preço demasiado alto que era o meu corpo fraco e desnutrido que se queixava com gritos estridentes no formato de dores agudas que se apresentavam a cada passo que eu dava na direcção desse passado longínquo qe eu tantas vezes sonhara e que agora me era familiar porque o medo esse nunca se mostrou, nunca o senti e nem sequer desconfiei que ele pudesse aparecer e por essa razão eu marchei sem cessar na companhia de amores e paixões despoletadas por graciosas mulheres de ancas generosas e opulentas que se saracoteavam nas ruas como deusas do Deus queira que aconteça arrastando pequenas crianças birrentas pela mão e extasiado por tantas revelações divinas e provas irreutáveis e inequívocas da existência de um deus seja ele qual for não me apercebi que o céu fruto da minha felicidade se fechara de nuvens e que tomara uma cor de aço carregado de inveja despejando sobre o mundo a sua iara tendo como instrumento da sua vingança um forte aguaceiro que se abateu sobre essa cidade quiméricada da qual eu me despedi quando me encontrava já exausto e completamente encharcado.

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