Invenções de um Génio Menor
... e com as roupas coladas ao corpo entrei num trem e esperei pacientemente que o centro da cidade se aproximasse testemunhando através dos vidros foscos e sujos da janela um turbilhão de dezenas de milhar de rostos que se arrastavam para lugar nenhum numa pressa desmesurada sem sentido característica de uma metrópole que sempre viveu à sombra da exploração dessa gente miúda que são as almas perdidas desta humanidade multifacetada de educações peculiares que nunca acertam no seu molde e que por essa razão nós crescemos aos tropeções como invenções de um génio menor que exaspera com a sua ociosidade e que assassina o seu tempo com disparates os quais nem o próprio deus seja ele qual for compreende e assim isolado de todos os mundos vi esse centro da cidade a invadir-me os sentidos e a conquistar-me a alma com doces mentiras de paraísos artificiais de Beaudelaire e putas com desconto para turistas e sexo a saldo para homes e mulheres precavidos com um volumoso maço de notas escondido no interior do corpo porque esse lixo humano que também é tóxico esconde-se nos mais obscuros becos à procura de almas tenras e suculentas que possam saciar a sua fome e porque no momento o trem deslizava sem atrito e sem obedecer à força da gravidade uma Alice de vestido branco com florzinhas vermelhas piscou-me o olho direito alisou o cabelo ruivo com a mão esquerda e esboçou um enigmatico sorriso de dentes brancos saudáveis e juvenis e um pequeno mas carnudo coelho de pêlo branco e felpudo nasceu do seu ventre e arrastou-se pelo chão deixando atrás de si um rastro de sangue e veio aninhar-se a meus pés e aqueceu-se com o meu desespero e deu-me razões para que sentisse medo não fosse ele mais um assassino por ecomenda a soldo dessa rainha obesa azeda foribunda de faces rubras, a puta velha da vida, que num impulso despropositado tinha assinado a minha sentença de morte numa folha de pergaminho à muito esquecida num monte de entulho nesse deserto seco e árido de muitas histórias...

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