Som Seco
... que ainda hoje persistem, prova irrefutável da herança legada por esses homens de todas as vidas, aventuras, tristezas, maldições, alegrias e sofrimentos com lágrimas e bocejos que eu perpetuo nas minhas recordações no agora e para o sempre;
homens ainda capazes, com força, ainda dispostos para a luta que covarde lhes foge, nem a morte, nem a vida, nem nada, apenas a certeza de um punho fechado a bater na superfície sólida de um balcão de um pequeno café escondido na penumbra de uma rua estreita e semideserta onde a solidão escolheu a sua morada;
o som é seco, eleva-se no ar, viaja no tempo e perde-se nas recordações daquelas mentes cansadas, mas ninguém lhe presta atenção, o medo não habita aqui, testemunho petreficado de espanto, a violência é somente um hábito, faz parte, mecanismo de sobrevivência, arma primordial, irmã gemea da intelegência;
aqui, reflicto, nada é poético, tudo é brutal, fico feliz por assim o ser, estes homens amam o peso da sua terra e isso não pode ser poesia, estes homens amam a frescura da sua água, o cheiro do seu ar, a côr do seu mar, o gosto das suas mulheres, a inocência das suas crianças, o calor do seu sol, a profundidade das suas almas e tudo isso não pode ser poesia, apenas é o viver, simplicidade de pensamento, a fome era intensa, diária, um hábito, um prato de comida representava a alegria, a felicidade suprema, a eterna gratidão a esse Deus das igrejas;
é este o local onde residem os homens, os verdadeiros heróis das grandes narrativas, anónimas sombras que construíram este mundo, pilares inquebrantaveis que sustentaram o peso das gerações, artistas de inegável genialidade que pintaram, esculpiram e projectaram esta realidade, eles são o verdadeiro pulsar da vida, eles são tudo, ultrapassam a verdadeira existência, o mito, a lenda, eles são um povo, uma raça, últimos exemplares de uma humanidade quase perdida, e eu, eu não sou nada, e eu, eu não lhes pertenço...
