Wednesday, March 08, 2006

Som Seco

... que ainda hoje persistem, prova irrefutável da herança legada por esses homens de todas as vidas, aventuras, tristezas, maldições, alegrias e sofrimentos com lágrimas e bocejos que eu perpetuo nas minhas recordações no agora e para o sempre;
homens ainda capazes, com força, ainda dispostos para a luta que covarde lhes foge, nem a morte, nem a vida, nem nada, apenas a certeza de um punho fechado a bater na superfície sólida de um balcão de um pequeno café escondido na penumbra de uma rua estreita e semideserta onde a solidão escolheu a sua morada;
o som é seco, eleva-se no ar, viaja no tempo e perde-se nas recordações daquelas mentes cansadas, mas ninguém lhe presta atenção, o medo não habita aqui, testemunho petreficado de espanto, a violência é somente um hábito, faz parte, mecanismo de sobrevivência, arma primordial, irmã gemea da intelegência;
aqui, reflicto, nada é poético, tudo é brutal, fico feliz por assim o ser, estes homens amam o peso da sua terra e isso não pode ser poesia, estes homens amam a frescura da sua água, o cheiro do seu ar, a côr do seu mar, o gosto das suas mulheres, a inocência das suas crianças, o calor do seu sol, a profundidade das suas almas e tudo isso não pode ser poesia, apenas é o viver, simplicidade de pensamento, a fome era intensa, diária, um hábito, um prato de comida representava a alegria, a felicidade suprema, a eterna gratidão a esse Deus das igrejas;
é este o local onde residem os homens, os verdadeiros heróis das grandes narrativas, anónimas sombras que construíram este mundo, pilares inquebrantaveis que sustentaram o peso das gerações, artistas de inegável genialidade que pintaram, esculpiram e projectaram esta realidade, eles são o verdadeiro pulsar da vida, eles são tudo, ultrapassam a verdadeira existência, o mito, a lenda, eles são um povo, uma raça, últimos exemplares de uma humanidade quase perdida, e eu, eu não sou nada, e eu, eu não lhes pertenço...

Wednesday, March 01, 2006

Cigarros sem Filtro

.... que leva no seu íntimo a promessa de um paraíso distante onde a cada segundo é possível inalar o perfume de todas as liberdades, descreveu-me um estranho homem de dentes estragados, corpo sofrido e rosto cansado, foi para lá que eu fugi quando me deram a primeira precária, sussurrou-me no exacto momento em que me passava para a mão a razão do seu sustento, serás obrigado a andar umas horas, concluiu assumindo a expressão de um sábio, mas vale a pena, atirou assim que desaparecia no mistério de mais um negócio;
talvez encontre a salvação no corpo de uma mulher, pensei enquanto descia as íngremes e estreitas ruas dessa Cadiz histórica que se aperta num abraço de muralha, aqui o sol não nos banha, reflecti ao olhar para o interior das casas através das portas e janelas que se encontravam abertas para o exterior, muito facilmente poderia ser mais um cidadão deste Sul, assumi ao reconhecer todas as curvas, cruzamentos, edifícios e jardins dessa urbe de muitas histórias, também ela me reconhece, senti quando as suas gentes me olhavam com uma expressão cúmplice;
depois entrei num pequeno café onde somente homens velhos batidos pela vida descansavam sentados em velhas cadeiras forradas a napa vermelha bebericando com uns lábios trémulos o bordo de um copo de cerveja gelada, nos dedos fortes e ossudos de outros trabalhos a marca indelével da nicotina dos pequenos cigarros sem filtro que eram acesos uns atrás dos outros;
também eu pedi uma cerveja e a conversa, que tinha sido interrompida com a minha inusitada chegada, foi imediatamente retomada, falavam de quê, apurei o ouvido, de histórias de mar e de terra e de luta e de sangue e de conquista ou simplesmente de morte, falavam como se eu não fosse um corpo estranho, um forasteiro, um desconhecido, alguns sorriam na minha direcção no momento em que mais uma narrativa era terminada, buscavam a minha aprovação, depreendi, claro que aprovo, anui como resposta, que poderia eu fazer para além de mostrar a minha gratidão, no seio de velhos ansiões o meu conhecimento era minimo, quase inexistente, portanto cobri-me com o manto do silêncio, acendi um pequeno cigarro sem filtro, também nos meus dedos nasceram pequenas manchas de nicotina...