Tuesday, January 31, 2006

Cadência

... depois, desci a falésia cravejada de cactos espinhosos e plantas rasteiras secas e mortas presas à terra dura, inculta e estéril;
momentos antes, uma alucinação simples de uma mulher seminua de pele branca lustrosa banhada pela àgua do mar com cabelos negros que desciam até à cintura, olhos cor de azeviche e dentes alvos contornados por làbios grossos cor de sangue, um ninfa qualquer deste mundo;
momentos antes, uma porção, uma passagem espiritual, quimico danado, porta para a percepção, saída de emergência, abre a boca, deixa-a cair na língua, arde, pensei, o que arde cura, concluí, sente-a escorrer lentamente pela garganta até ao estômago àvido, cratera aberta para a peçonha, bolsa de veneno;
momentos antes, na manhã fresca e ensolarada, quando as àrvores gentilmente dançavam conduzidas pela ténue brisa do começo do dia, um não redondo, conclusivo, que prepectuou a nossa diferença, a minha e a do meu companheiro de viagem, não, disse ele;
momentos antes, a madrugada calma e silênciosa, o acordar, estou vivo;
momentos depois, o roncar do motor da velha carrinha encardida cor de poeira, eu conduzo, disse, adoro conduzir, pensei;
momentos depois a estrada incólume, a paisagem de areias finas e pinheiros mansos, o cheiro da natureza, os vidros abertos para o mundo, a doce melodia de um radio, um homem a cantar uma historia de amor, ciúmes e ódio;
momentos depois uma povoação inverosímil com gentes estranhas, ruas caóticas, policia armada e pequeno almoço de cafe e leite e torradas com manteiga;
momentos depois o regresso à praia, ao extenso areal, às àguas calidas, ao mar terno;
momentos depois...

Wednesday, January 11, 2006

Os Filhos da Desobediência

... e os filhos da desobediêcia nasceram de uma só mãe, constituíram uma familia e depois formaram um grupo, que se transformou numa tribo, numa raça, num povo. Edificaram um país, e agora conquistam o mundo percorrendo-o descalços, rotos, andrajosos, sujos pela vida. Derrotaram o medo, transformando-se em força pelo uso da insatisfação, recebendo do fruto da sua imaginação a garantia da sua superioridade. Simplesmente um mecanismo de sobrevivência, gritaram uns, heresia, gritaram tantos outros, desumanidade, supiraram as vítimas que sucumbiram na violência da tortura ou que pereceram no vivo fogo da condenação. Os filhos da desobediência são sinonimo de grandeza, conquista, magnanimidade. Buscam o encanto de todas as criaturas, almejam a perfeição de todos os mecanismos, ambicionam a posse de todos os tesouros, desejam a doçura de todos os prazeres, anseiam a derrota de todos as igualdades. O aval foi-nos dado pelo divino, exclamam, enquanto drenam as poças fétidas de àguas estagnadas que lhe oferecem resistência. Os filhos da desobediência cresceram em número, multiplicaram-se, ocuparam as distantes tundras das terras do Norte, atravessaram os escaldantes desertos dos grandes continentes, embrenharam-se nas densas florestas do esquecimento, construíram grandes metropoles de cimento armado, e no presente vagueiam pelo espaço sideral em busca de novas vitórias. Os filhos da desobediência quebraram com todas as leis da natureza e venceram, venceram-nos...

Monday, January 02, 2006

Fronteira

... o estranho prazer de uma fronteira com homens e mulheres e vidas e ambições e sonhos e rejeições e pesadelos e o encarceramento e a fome e o desespero e a vergonha e a impotência e por vezes, demasiadas vezes a morte porque tudo se encontra nessa pequena extenção de mar, nessa grande fronteira do mundo e continuem a bater, continuem a bater nas muralhas dessa Europa Fortaleza, lembro-me dessas linhas, do ritmo, da luz e da sonoridade quando chaguei ao ponto sul do velho continente, ao fim deste mndo, ao inicio do abismo, ao contacto com essas águas azul turqueza de ondas calmas desconfiadas capazes da morte e ao longe vislumbro uma coluna de Hércules, castanha deserta pedregosa estéril desabitada e quente, muito quente, com o calor de Africa, e perto, onde me sento, a outra coluna, a que me suporta sustenta encanta e supreende com gente estranha que me tocam com olhos turvados de desprezo e bocas molhadas de descontentamento e mentes afundadas em ilusão e corpos envoltos de desejo seguidos por cães amistosos e doces que farejam no lixo a possibilidade de uma próxima refeição e dejectos humanos e roupa suja abandonada esquecida e palmeiras vergadas ao calor e o ar parado do meio dia e o silêncio do abandono e o sentimento de deslocação e o facto de me encontrar perdido quando exausto procuro por uma sombra não reconhecendo o que vejo nem tão pouco sendo reconhecido por tudo o que estou a ver porque estou na fronteira, reflicto,na terra de ninguém, com os seus clandestinos, esses filhos dessa puta que jamais os pariu mas que os recebe alimenta veste e dá carinho e algum conforto para depois sem lágrimas dor e suspiros os expulsar, estou na fronteira, continuo a reflectir, e onde está o comercio o tráfego e os traficantes e mercadores, pergunto a esse mar calmo assim que me deito à sombra de uma velha árvore de ramos ressequidos, o chão é poeira, debaixo de mim somente as marcas disformes do meu corpo...