Thursday, February 24, 2005

Finalmente Salvo

... e finalmente salvo dessa Amesterdão de muitas etnias encontrei refúgio num terceiro andar de um prédio vertical pintado de sujo que nascia na orla de uma rua silenciosa e vazia e cansado pela viagem devaneio delírio subi as íngremes escadas de madeiraque rangiam de dor fruro do peso dos meus passos e poisei no chão de um apartamente que conhecia apenas por descrição essa mochila velha e gasta que consistia no paradigna mais gritante da minha própria vida que no momento repousava do desassossego e de ímpeto de uma estrada que se estendia a perder de fim até a um futuro incerto ao qual eu regressaria mesmo que não o quisesse e com a chuva a bater furiosamente nas vidraças de uma janela que me portegia dos rigores de mais um país do norte onde o clima é tão instável como uma pequena jangada a navegar em mar alto ouvi na primeira pessoa entrecortada por longas pausas e pequenos suspiros a história de mais um homem com um passaporte de cara pálida que tal como o meu abria todas as fronteiras de todos os países do mundo mas que, e uma vez mais tal como o meu, não era o suficiente para que pudesse viver trabalhar estar inserido numa comunidade que olha de soslaio para quem é diferente, que ignora os anseios necessidades sonhos de quem nasceu em outro ponto do globo, que é indiferente arrogante e despreza quem aprendeu desde de criança um outro idioma uma outra língua mãe, que ata pés e mãos com artifícios de burocracia e com leis e artigos e círculos viciados que levam a lugar nenhum esses homens e mulheres que fogem da fome miséria abandono e que procuram algum conforto ou simplesmente a sobrevivência num novo país povo governo instituições que lhes aniquilam todas as quimeras que reduzidas a ruínas e cinzas desaparecem e perdem-se no imenso vazio que é este mundo transportadas pelo um vento gélido que sopra de norte o qual eu oiço como um sinal vívido e um aviso de morte nos últimos instantes em que novamente volto a adormecer.

Thursday, February 17, 2005

Despertar

... Despertei em sobressalto numa madrugada que já se anunciava com o sol a despontar atrás das grandes construções de uma cidade que era banhada pelos raios dourados do astro que como um ciclo fechado renova a vida dos seus filhos adormecidos e rígido pelo frio de uma noite solitária mal me pude mover e com o corpo entorpecido pelo cansaço vislumbrei ao longe esse irmão de sangue que inquieto buscava-me com um olhar perdido no meio de uma multidão que paulatinamente acordava e saía do seu refúgio nocturno para a clarividência do dia realidade que se renovam como que por magia porque a Terra roda sobre si mesma e o passar do tempo é inexorável como um recurso não renovável que na mais completa ingenuidade e ignorância usamos gastamos abusamos sem a mínima percepção do seu fim e da sua destruição certa e é com as certezas de uma evolução que nunca existiu, de que é uma ilusão de óptica, que consiste numa mentira forjada na fogueira da vaidade que eu com dificuldade levo os dedos á boca e assobio com a plena força do desespero e o lamento que nasceu nos meus lábios percorreu o jardim, acordou a quietude, assustou os pássaros chilreantes, ecoou nas paredes maciças da floresta de pedra e penetrou agudo nos ouvidos desse meu irmão de sangue que de imediato reconheceu o lamurio e caminhou na direcção da sua proveniência com um passo rápido e lesto enquanto eu já desperto desaperto o nó que me ligava á mochila para assim me erguer como um homem, para abandonar toda a rejeição que uma alma pode comportar, para estar preparado e ser digno desse abraço que esse irmão de sangue me deu assim que me encontrou.

Thursday, February 10, 2005

Revelações

e numa noite de desassossego velhos cães raivosos e solitários atravessam a imensa floresta virgem tocando ao de leve o solo que rangia de dor fruto das garras que eram contundentes agressivas mortíferas pintadas de um vermelho sangue ressequido de outras mortes que se escondem nas longínquas paragens das recordações
eram como lobos sedentos de almas perdidas que percorrem caminhos batidos por um milhar de gerações mortas pela força de um instinto que não desejam que não criaram que não regatearam
eram como animais grotescos que nos entram nos sonhos sem serem convidados sem bateren à nossa porta sem serem desejados
eram como gárgulas aladas que voam em círculo em ares pútridos carregados de enxofre que nos expiam lá do alto esfomeadas do nosso corpo mutilado e moribundo
e frenética, uma feiticeira dança em círculos, ao nosso redor, lançando grunhidos e profecias acerca do nosso futuro e condenação
e uma leve brisa nasce no ar quente e pesado e uma pequena nuvem de pó levanta-se no deserto seco árido pedregoso de dunas que se perdem no horizonte e transforma-se na imagen daquele outro que nos castiga e persegue
e nesse instante captado pela fotografia mental somos o centro do mundo porque num plano superior alguém nos vigia os pensamentos
e lentamente como a prova da passagem inexorável do tempo as luzes extingue-se e na escuridão uma cintilante folha do verdadeiro livro pintada a ouro reluz caída do vácuo e poisa docemente nas lajes de mármore branco de um templo habitado por espectros de deuses e deusas menores que se extinguiram por falta de adulação de sacerdotes que foram devorados por esse gigante de olhos cor de inferno e mandíbulas retrácteis que cospem fogo
e quando nos debruçamos para ler as leis sagradas dessa fé esquecida somos cegados pelo esplendor da sua beleza e envenenados pelo travo azedo da sua vingança
e quando já condenados gritamos com o desespero de um corpo que luta pela vida que mantém a chama acesa da esperança que roga a um deus desconhecido que nunca se apresentou que acabe ali mesmo com o próprio tempo
e nesse instante somos projectados para um precipício de escarpas mortíferas e contundentes pela não violenta de um anjo ate que...

Thursday, February 03, 2005

Era uma vez uma fábula

... E uma fábula começa como todas as fábulas com um Era uma vez um cara pálida que possuía um passaporte europeu cinco estrelas com visto de trabalho norte americano que lhe abria todas as portas dessa fortaleza inacessível de muralhas imensas pedregosas intransponíveis que é a Europa, cara pálida que navegava no Mr do Norte a bordo de um ferry boat que momentos antes deixara para trás uma ilha que nascia como uma protuberância do meio de um grande oceano e que era governada por uma rainha velha e presunçosa como o resto dos seu subdítos são porque a ilha na qual habitam era tal e qual como eles: fria e inóspita a qualquer sentimento de felicidade e alegria e seguindo o movimento contrário ao êxodo do rebanho humano o nosso cara pálida fugia para países mais baixos onde imperava a liberdade e amizade entre todos os povos mas quando o barco aportou nesse território quimérico encontrou certas e inesperadas dificuldades porque apesar do seu maravilhoso passaporte abre fronteiras ele afinal de contas era um tipo escuro estilo latino sul americano e todos os seus dados foram esmiuçados ao mais ínfimo dos pormenores e só quando a sua origem de cara pálida foi comprovada com sendo inegável deram-lhe a licença par entrar nesse outro reino de países baixos onde perdido de todo e qualquer contacto humano viajou vinte horas seguidas na solidão de um comboio até chegar a uma Amesterdão de muitas etnias onde de madrugada noite cerrada sem o contacto visual do irmão de sangue que não o esperava como fora combinado viu-se obrigado a calcorrear um deserto de ruas gigantescas apinhada de loucura promiscuidade e pecado encontrando a segurança apenas nas traiçoeiras luzes de nêon que se agitavam na noite escura e depois de bater à porta de todos os hotéis baratos que encontrava, depois de ter recebido um redondo e conclusivo não á perguta, tem quartos livres, vistiu um velho e grosso casaco de fazenda preta, amarrou uma das alças da mochila a uma das pernas e adormeceu desassossegado num banco de jardim.