Finalmente Salvo
... e finalmente salvo dessa Amesterdão de muitas etnias encontrei refúgio num terceiro andar de um prédio vertical pintado de sujo que nascia na orla de uma rua silenciosa e vazia e cansado pela viagem devaneio delírio subi as íngremes escadas de madeiraque rangiam de dor fruro do peso dos meus passos e poisei no chão de um apartamente que conhecia apenas por descrição essa mochila velha e gasta que consistia no paradigna mais gritante da minha própria vida que no momento repousava do desassossego e de ímpeto de uma estrada que se estendia a perder de fim até a um futuro incerto ao qual eu regressaria mesmo que não o quisesse e com a chuva a bater furiosamente nas vidraças de uma janela que me portegia dos rigores de mais um país do norte onde o clima é tão instável como uma pequena jangada a navegar em mar alto ouvi na primeira pessoa entrecortada por longas pausas e pequenos suspiros a história de mais um homem com um passaporte de cara pálida que tal como o meu abria todas as fronteiras de todos os países do mundo mas que, e uma vez mais tal como o meu, não era o suficiente para que pudesse viver trabalhar estar inserido numa comunidade que olha de soslaio para quem é diferente, que ignora os anseios necessidades sonhos de quem nasceu em outro ponto do globo, que é indiferente arrogante e despreza quem aprendeu desde de criança um outro idioma uma outra língua mãe, que ata pés e mãos com artifícios de burocracia e com leis e artigos e círculos viciados que levam a lugar nenhum esses homens e mulheres que fogem da fome miséria abandono e que procuram algum conforto ou simplesmente a sobrevivência num novo país povo governo instituições que lhes aniquilam todas as quimeras que reduzidas a ruínas e cinzas desaparecem e perdem-se no imenso vazio que é este mundo transportadas pelo um vento gélido que sopra de norte o qual eu oiço como um sinal vívido e um aviso de morte nos últimos instantes em que novamente volto a adormecer.
