Anjo Escuro
... e é o fim disse-me o aperto que me cresceu no peito e a angústia que me nasceu na alma, é o fim ensinou-me esse quadro de paisagens paradas de calor sufocante com ondas indistintas a nascer do nada e por onde viajava em velocidade escaldante esse gigante lagarto castanho de muitas rodas que me engolira, é o fim cantavam em uníssono as vozes de um milhão de homens e mulheres que lutavam pela vida nos mais ínfimos e recônditos cantos das minhas recordações e que eu tento desesperado salvar da condenação certa de infernos improváveis onde amantes sôfregos de desejo e esperança copulam até que o sangue se coagule nos seus sexos ávidos de descanso, até que lhes nasça um esgar de dor nas suas faces que assusta o próprio demónio que nos comprou numa grande feira de artigos humanos que é este mundo que gira na direcção de um fim destrutivo e para onde vais, para onde viajas, gritam todos em meu socorro, regressa e salva-te desse mundo de paisagens paradas de sofrimento e comiseração, clamam em pânico e quando todos parecem já mortos assassinados pelo meu esquecimento um angelical regressa ao meu regaço ecoa nos meus ouvidos vindo do nada e suplicando-me de braços estendidos uma tal alma gémea de tez escura sedosa brilhante com seios cheios e redondos e cara de anjo escuro com boca vermelha carnuda nariz botão de rosa e olhos negros profundos e vítreos de febre de paixão como a obsidiana caminha na minha direcção com a força de atracção de um buraco negro para o qual eu sou impelido sem oferecer resistência e abraço-a e beijo-a e afogo-me na sua boca e ardo no seu calor e desapareço na profundidade do seu sexo e quando finalmente ouço o estrondo catastrófico do meu orgasmo ofereço a salvação aos milhões de almas que pereceram mercê do meu esquecimento e salvos por fim eu olho para o meu passado e conto uma fábula de anjos demónios e feiticeiras.
