Thursday, January 27, 2005

Anjo Escuro

... e é o fim disse-me o aperto que me cresceu no peito e a angústia que me nasceu na alma, é o fim ensinou-me esse quadro de paisagens paradas de calor sufocante com ondas indistintas a nascer do nada e por onde viajava em velocidade escaldante esse gigante lagarto castanho de muitas rodas que me engolira, é o fim cantavam em uníssono as vozes de um milhão de homens e mulheres que lutavam pela vida nos mais ínfimos e recônditos cantos das minhas recordações e que eu tento desesperado salvar da condenação certa de infernos improváveis onde amantes sôfregos de desejo e esperança copulam até que o sangue se coagule nos seus sexos ávidos de descanso, até que lhes nasça um esgar de dor nas suas faces que assusta o próprio demónio que nos comprou numa grande feira de artigos humanos que é este mundo que gira na direcção de um fim destrutivo e para onde vais, para onde viajas, gritam todos em meu socorro, regressa e salva-te desse mundo de paisagens paradas de sofrimento e comiseração, clamam em pânico e quando todos parecem já mortos assassinados pelo meu esquecimento um angelical regressa ao meu regaço ecoa nos meus ouvidos vindo do nada e suplicando-me de braços estendidos uma tal alma gémea de tez escura sedosa brilhante com seios cheios e redondos e cara de anjo escuro com boca vermelha carnuda nariz botão de rosa e olhos negros profundos e vítreos de febre de paixão como a obsidiana caminha na minha direcção com a força de atracção de um buraco negro para o qual eu sou impelido sem oferecer resistência e abraço-a e beijo-a e afogo-me na sua boca e ardo no seu calor e desapareço na profundidade do seu sexo e quando finalmente ouço o estrondo catastrófico do meu orgasmo ofereço a salvação aos milhões de almas que pereceram mercê do meu esquecimento e salvos por fim eu olho para o meu passado e conto uma fábula de anjos demónios e feiticeiras.

Thursday, January 20, 2005

Perdido na rodóvia

... e depois de vinte horas de sono e de dor entrecortados por visões de uma noite negra e chuvosa de nuvens pesadas a vomitar raios e coriscos que explodiam no ar num estrondo como uma guerra fratricida a manhã apresentou-se calma e límpida com o sol a despontar tímido mas quente pintando a aurora de laranja vermelho azul turquesa e assim que pude ler os reclames luminosos de néon vermelho que ainda não se tinham apagado das distantes casas de putas que pontuavam ao longe na planície fi-lo em espanhol pelo que quando apeamos numa qualquer paragem para descansar pude finalmente beber um café minimamente decente comprar uma redonda, apetecível e saborosa tortilha de batata que após comer metade guardei o resto para a viagem porque saíra de Amesterdão somente com um maço de cigarros e uma mão cheia de erva que enrolava em papel de mortalha king size e o fumo que inspirava e expirava para o ar tépido do fim de manhã transformou-se numa miragem, num fantasma e depois num corpo sólido de um homem alto e incrivelmente magro com o cabelo que lhe restava da calvície acentuada desgrenhado, barba de quatro ou cinco dias, face oval estreita seca de ossos proeminentes, olhos pequenos escuros cansados, nariz grande e pele queimada pintada pelo mercúrio que lhe cicatrizava as chagas que lhe irrompiam da epiderme e era como uma personagem que viajara na história directamente vinda do vale dos leprosos e que não tinha sido salva pelo sangue de Cristo e que envergava um casaco de militar gasto sujo puído de cor esverdeada, calças de fazenda pretas muito grossas e botas de trabalho da costrução civil e à pergunta dele posso fumar eu respondi espera um pouco porque aquela boca cancerosa de dentes amarelos castanhos apodrecidos escondiam uma sentença de morte e depois de fumar cerca de metade do charro passei-lho para a mão suja e magra de dedos raquíticos que o seguraram com sofreguidão como quem passa um testemunho de verdades insondáveis pelo que ele percebeu e sentou-se ao meu lado no lancil do jardim e atirou para o ar com voz fina e aflautada um é a vida, é a vida respondi eu abrindo-lhe assim caminho para a confissão, fui apanhado, começou depois de inalar o fumo, na fronteira entre a Holanda e a Alemanha com três kg de cavalo na mala do carro, eu ia a conduzir e o turco que seguia a meu lado vai apanhar dez anos, e tu como te safaste, perguntei desconfiado, pura sorte respondeu, não trazia documentos, deixei a carteira em casa, explicou num sorriso aberto mostrando de uma vez por todas a boca doente, e mandaram-te para Portugal, perguntei ainda mais desconfiado, extraditaram-me, assentou, não estava a trabalhar, vivia em Hamburgo com um irmão e ganhava a vida no tráfico por isso não tinham nenhum registo meu, e é melhor expulsar o lixo para onde ele pertence, pensei eu, estive cinco dias preso, continuou ele e depois deram-me um bilhete e meteram-me na camioneta sem um centavo no bolso, não como vai para dois dias, concluiu pesaroso com a face carregada de uma tristeza fingida, por acaso não tens uma moeda para tomar um café, pediu com a esperança a raiar-lhe nos olhos, toma duas e come, pronunciei enquanto enquanto lhe passava o dinheiro para a mão, obrigado murmurou ao levantar-se caminhando depois apressadamente na direcçãodo pequeno restaurante extasiado por ter enganado mais um otário com a sua bela história.

Thursday, January 13, 2005

O técnico de sistemas

... e quando já embalados pelo rio negro que desliza incólume através do velho continente abaixo desaguando nesse jardim espinhoso de plantas rasteiras de cor verde escuro árido plantado à beira mar ele não parava de falar nem mesmo quando eu encostava a cabeça ao vidro e contemplava a paisagem improvável da terra de Rimbaud ou tapava ao de leve e discretamente o nariz com as pontas dos dedos tentanto desviar o hálito sulfuroso de um morto vivo que me explicava, que explicava a quem se dispusesse a ouvi-lo que eu sou um técnico de sistemas, ilucidava-nos satisfeito, e não faltam empregos em grandes empresas de negócios para homens como eu e no entanto tenho quarenta e tal anos e viajo para Portugal para viver numa tenda em qualquer parque do sul do país porque agora estamos no verão e os turistas são às dezenas de milhares e os empregos nos restaurantes abundam e se eu trabalhar doze horas por dia seis dias por semana arranjo o dinheiro suficiente para me endireitar, segredava-me isto tudo num tom de voz muito baixo, quase imperceptível para que mais ninguém ouvisse enquanto fazia uns gestos muito estranhos com a mão direita para que eu aceitasse uns comprimidos para dormir, dizia ele, não obrigado prefiro haxixe, respondia-lhe eu entredentes enquanto pensava, meu velho eu ainda não ressaco, não sou nenhum junkie e tu devias de ter mais juízo com a tua idade e ainda em filmes porque eu tive um coffee shop em Amesterdão durante vinte anos confidenciava-me a espaços, abri-o nos anos setenta e fui um dos primeiros e depois pus cinco raparigas na red light a trabalhar para mim, fodia quando me apetecia, sorriu vaidoso, e então o que te aconteceu, perguntei para que o devaneio acabasse de uma vez por todas e a resposta foi um simples encolher de ombros porque a vida é malvada, não perdoa e a branca muito pior e numa qualquer estação de bus de Paris ele desapareceu como se apresentou procurando no desconhecido com os olhos de puto esperto de quarenta e tal anos um tipo que não saiba exactamente no que consiste um técnico de sistemas.

Friday, January 07, 2005

As crónicas de um cara pálida

Quando ele me dirigiu a palavra no idioma de Cervantes eu encarei tudo com a maior das naturalidades porque afinal de contas sou um tipo escuro latino sul americano e também porque estavamos na internacional Amesterdão de todas as etnias numa manhã cinzenta escura húmida de uma primavera que teimava em não aparecer sentados ambos numa estação de bus inverosimel à espera de uma salvação de muitas rodas que nos levasse a um outro mundo que pertence a um outro universo e que acreditem ou não era-nos bem conhecido e o hablas español saiu um pouco forçado de um homem pequeno atarrecado escuro de olheiras cavadas pela vida e a cabeça redonda e imensa desproporcional ao corpo franzino e miúdo que segundos antes abandonara uma velha decrépita do norte com o cabelo estranhamente pintado de purpura papaeira descaída até ao pescoço nariz adunco e olhos de um azul mortiço e que chorava ao acenar para o grande lagarto castanho que já se encontrava em movimento e que segundos antes engolira-nos e era a minha miúda disse-me já em português porque minutos antes eu explicara-lhe que viajava para Portugal, também eu, respondeu por sua vez, ao que eu pensei, puta que pariu lá se vai o meu sono já que vinha de directa sem ter encontrado a cama embalado por todas as drogas e reminisciências de Amesterdão com putas e alcool à mistura e um último abraço de um amigo de sangue que foi visitado por um viajante cara pálida que possuía um passaporte cinco estrelas europeu com visto norte americano que lhe abriu todas as portas deste velho continente que estão encerradas a homens e mulheres bem mais claros do ele e um até logo nunca chega, nunca nos satisfaz, nunca é suficiente porque a saudade nasce quando o irmão de sangue dobra a esquina e atira o último sorriso de adeus.