Monday, July 07, 2008

Novamente na Noite

Transpiro na noite cálida, quieta, coberta de silêncio. Sinto fome e por isso corro todas as ruas, becos e vielas à procura de onde possa comer. As minhas entranhas rulminam o espesso liquido em que se transformara a cerveja e uivam num desespero de morte.
A morte, deduzo electrificado pelos meus músculos que entretanto se retezam num espasmo, a morte chega-se-me pelas costas vinda através de um ruído de passos de muitos homens que caminham a mesma rua que eu caminho, que percorrem a mesma viela que eu percorro, que atravessam a mesma praça que eu atravesso. Num gesto lento e disfarçado levo a minha mão direita ao bolso traseiro das minhas calças e sinto a fina mas longa pretuberância da navalha que levava comigo.
Na noite quente e cálida como o útero de uma mulher ou noite quieta e silenciosa como o raciocínio de um morto tudo pode acontecer.
Na noite de uma cidade que me é estranha ou na noite de uma cidade que me estranha tudo é permitido.
Decidido desço do passeio para a rua e bem no meio da recta de paralelípepedos estanco a marcha. Na noite limpa espero que se me aproxime o olhar altivo e sorriso desafiante de três adolescentes de tez escura e cabelo de caracois revoltos. Assim que passam por mim ouço o estampido dos seus passos a crescer no silêncio de tudo o que nos rodeia, testemunho a vaidade e orgulho que lhes enche o peito de homens já formados e percebo a segurança de quem já há muito venceu o medo.
Eles são apenas três e eu um só, por essa razão eles passam por mim incolumes para se perderam no emaranhado de um futuro desta cidade que se me apresenta vestida de noite, de tédio e de desprezo.
Desiludido sigo o meu rumo para lugar nenhum. Paulatinamente o meu andar torna-se lento e entorpecido e a minha cabeça pesada e dorida fruto da viagem e da cerveja e do calor que me envolve como uma mortalha.
Do nada chegam-se-me cinco concludentes badaladas de um relógio de torre alta que me anunciava a noite já ida e a madrugada que se apresentava.
Exausto sento-me num dos degraus de uma longa escadaria de uma Catedral erguida a ouro transatlântico. Pedra sobre pedra a Igreja ergue-se num colosso ate a um céu negro de estrelas difusas e enfeitado por uma Lua quarto crescente que se abria na abobada celeste como um olho semi- cerrado.
E os meus pensamentos ecoam pela noite e pela cidade e regressam-me com a força de uma revelação porque os livros a escrever e os caminhos a percorrer e as mulheres a amar sao uma projecção bem real, bem plausível, completamente exequível se ao menos eu fose alguém outro, um outro homem, com outras convicções, com outros valores e ideias e respeito pelo um talento que tarda em aparecer ou que mesmo nunca existiu.
Ansioso engulo em seco e a amargaosa da cerveja morna e morta chega-me ao palato vinda directamente das entranhas. Sofrego respiro fundo, uma, duas, três vezes até ter a certeza que o vómito foi vencido. Depois, mais calmo, enrolo um cigarro, cuidadosamente levo-o aos labios entreabertos até que o acendo.O fumo é tragado e expelido várias vezes; tantas ou as suficientes para que a minha cabeça se sinta a viajar num rodopio de expirais cada vez mais largas, cada vez mais longas, cada vez mais rápidas para subitamente acabarem na projecção de um vómito.
Descarrego-me em longas e espassadas descargas de líquido amarelo esverdiado morno azedo e ácido.Aquando completamente vazio sossego-me, vagarosamente afasto-me o mais possivel da peconha que no passado me enchia e sentado no outro extremo da escadaria da Igreja fecho os olhos e repouso a cabeca nos joelhos.
Das árvores e dos beirais e telhados das casas pequenos pardais de cor cinza e castanho acordam do seu sono nocturno para saudarem a alvorada porque a imensa bola de fogo acaba de nascer na linha do horizonte e o vermelho sangue da vida percorre todos os cantos deste lado do mundo.
Eu respiro a indecência e a doença contida em todos os poros e atmos e fibras e de tudo o que e meu e por isso sinto-me no fim de mim e no início de todos os caminhos a percorrer….

Thursday, August 16, 2007

Da noite para o dia

… porque de todos os dias este é o primeiro. Olho-o com a inocência de uma criança e descubro-o quente, denso e abafado.
O dia veste-se de vermelho rubro de um sol que lentamente se esconde, traz sobre os ombros uma capa de azul celeste de um céu que se transforma, e tem desenhado no peito pequenas aves migratórias que bailam no ar a dança da pura sobrevivência. Os habitantes do dia descem do nada e sobem para lugar nenhum. Num processo lento, pastoso e reflectido, recebem da luz um último adeus, abraçam carregados de saudade um fim antecipado, vertem uma lágrima que se extingue assim que cai na esterilidade do pó solto.
Alugo um quarto num Hotel America. Uma cama exiguamente encarcerada em quatro paredes brancas. Os lavabos são no exterior, comuns. Num dos cantos do quarto, junto á janela, uma escrevaninha e uma cadeira onde me sento e esvrevo os relatos do dia. Encho-me de poesia, engulo-a sem a mastigar.
Falo do Deus e do diabo, assumo como certa a vida e amorte, carrego nos meus braços o cadaver obsoleto do amor. Depois busco a paixão por todas as coisas. As linhas são imperceptíveis, o sentido anónimo, a coerência simplesmente desconhecida.

Como da noite para o dia saio incolume para o exterior. No quarto deixo tudo o que me pertence. Farto como uma criança amamentada oblitero o jantar e caminho através dessa noite prematura quente e cálida como o peito nú de uma mulher. Anseio a noite, penso assim que me perco numa pequena praça que num repente se abriu no emaranhado de vielas e ruas e becos que separam a vida e a posse e a história de um novelo de gerações. Escolho uma das vielas ao acaso e continuo a marcha.

Vejo-me claramente a entrar num pequeno, escuro e bafiento bar de arcadas de pedra escrupulosamente polidas. Subo três degraus, empurro uma porta de madeira e ao entrar sou imediatamente fulminado pelo o olhar de uma mulher de meia idade. Sento-me ao balcão e, após uns instantes de hesitação do empregado do Bar, é-me servida uma cerveja. O líquido amarelo, quente e morto, acelera-me as entranhas. Bebo-o de um trago e peço outra. A mulher de meia-idade continua a mirar-me; acende um cigarro e passa a língua pelos lábios enquanto expira o fumo. Entretanto ouço o som seco de um fundo de um copo cheio de cerveja a bater no balcão. Olho o empregado do balcão que me responde com um pequeno rosnar. Depois vira-me as costas, corre o balcão com um pano húmido e para exactamente em frente da mulher de meia-idade. Olha-a com algum desprezo. Depois agarra-lhe com a mão esquerda a face de carnes pendentes, puxa-a para si e dá-lhe um beijo na boca. O momento é prolongado pela força que o homem empreende com a mão esquerda contra a ineficaz resistência da mulher que não se consegue libertar.
Volto-me para o fundo do copo e testemunho pequenas bolhas de gás lentamente a subir o líquido para se extinguirem no nada.

Friday, November 17, 2006

Flash-back

.... para uma cidade que te é completamente desconhecida porque quando Almeria se te apresentou vestida de noite não a compreendeste porque a achaste velha, suja, composta de predios degradados, lixo de rua e gente que te virava a face quando as questionavas que rumo seguir.
Por essa razão quase esqueceste da deliciosa viagem que horas antes havias feito, da esplêndida paisagem lunar desse semi-deserto que nasce nas margens do mediterraneo e se prolonga até aos limites interiores de Andaluzia.
Dessa terra branca pedregosa que asfixiava a pequena vegetação que a todo o custo tentava sobreviver à carência de àgua.
Desses espelhos gigantescos que ao longe confundiste com água mas quando te aproximaste testemunhaste extensas estufas de plantações de tomates e afinal de contas os espelhos que vislumbraste ao longe e que confundiste com vastas extensões de água não eram nada mais nada menos que plastico ondulante que dançava acompanhado pela brisa quente carregada de ar pesado.
Obliteraste completamente as compridas e esguias estradas de alcatrão quente e pastoso que te levaram a visitar pequenas povoações esquecidas no nada sitiadas por exercitos de cactos armados de longos e contudentes espinhos.
Carros abandonados ao tempo, á ferrugem, ao esquecimento, eram o abrigo de velhos cães sedentos de pêlo sujo que perguiçosamente bocejavam á passagem de mais um rofento veiculo.
E um vale nasceu após uma descida íngreme de curvas e contracurvas que com uma extrema dificuldade o autocarro venceu. E então pensaste, aqui tudo é mais verde, um pouco mais luxuriante, tudo tem um pouco mais de vida. Viste Figueiras nos quintais das casas, vinhas a cobrir partes das paredes das casas, e Oliveiras a povoar aqui e ali o vale como figuras estranhas, criaturas bizarras que ao longe entre as ondas de calor que nasciam do chão confundiste com gente.
Depois, perdida no nada, viste uma casinha, muito pequena, muito branca de cal pintado de fresco, encarcerada entre a densa vegetação, covil de animal selvagem, e então pensaste, com toda a vontade da minha alma e do meu ser, com todo o gosto, eu acabaria ali os meus dias...

Friday, October 13, 2006

Estrada

... quando finalmente me sentei no meu lugar, a meio do bus, pegado à janela, a tarde já ia a meio. Provavelmente chegarei noite cerrada, pensei ansioso, talvez não, continuei, no mediterraneo, especialmente no Verão, as noites são cutas e os dias longos.
O autocarro arrancou, abandonou o terminal, atravessou uma Cadiz caótica e fez-se à estrada num ronronar de felino contente. Ninguém a meu lado; satisfeito, estiquei as pernas, liguei-me ao vidro da janela e testemunhei a paisagem em constante metamorfose. O mar ficara irremidiavelmente para trás, seguiamos na direcção de Granada e só de lá retomariamos o caminho para Almeria.
A terra, estéril e amarelo-castanha, sustentava precariamente pequenos tufos de erva seca e só a espaços, muito escassos, uma Oliveira nascia na longínqua linha do horizonte. Pequenas, redondas e inverosímeis colinas sucediam-se como ondas de um oceano calmo e perguiçoso. No ar quente e pesado, a voar em círculos, escuras e possantes aves de rapina rasgavam o espaço sustentadas pelas correntes de ar quente que nasciam da terra. Possivelmente procuravam coelhos e pequenos roedores que com toda a certeza se escondiam na frescura do interior da terra.
A estrada tornara-se uma linha contínua; negra recta de todos os destinos e de todas as dúvidas. Espelho indistinto desse autocarro que projectava no asfalto quente de um sol de brasa a sombra de todos nós. A estrada é um aparelho de sonhos, caixa mágica de todas as fantasias, alucinação de todas as mentes e imaginações. A estrada é transparente, honesta, ama e gosta de ser amada. A estrada é, pela sua força, o alvo de todos os cultos, detentora de todos os misterios, mãe de todos os desejos.
A estrada leva-te...

Friday, October 06, 2006

Espera

... depois procurei o terminal de Bus. Desci uma íngreme viela que se contorcia em curvas até ao porto marítimo. A certa altura passei por uma habitação desfeita em obras. Do interior ouvi o som do trabalho, estrondos de ferramentas a derrubar paredes confundiam-se com as vozes ásperas dos homens que gritavam para se poderem entender. Recordei a minha adolescência e desejei entrar.
Qando finalmente cheguei ao porto marítimo onde enormes barcos transatlânticos descansavam num mar inerte encontrei o terminal. Um local pequeno e suado de paredes amarelas de sujo com bancos corridos em todo o perimetro e um pequeno guichet a uma canto onde no interior, protegido por um grosso vidro, um homenzinho de meia-idade suava todo o seu desespero. Comprei um bilhete de só ida para Almeria; comparei a hora de partida do bilhete com o redondo relogio de parede que lentamente esgotava o tempo e descobri que possuía duas horas de espera.
Senti fome. Pegado ao terminal de bus um bar. Sentei-me ao balcão e enquanto esperava pela tostada acendi um cigarro.
Entretanto um velho cão entrou no terminal, estava sujo, velho e fatigato. Tinha pêlo cerdoso preto que parecia cair-lhe dos lombos que eram redondos bojudos opulentos; um gordo rafeiro bem alimentado que ofegante e de lingua pendente a escorrer saliva procurava a frescura na penumbra de um canto esquecido pelo resto do mundo.
Momentos depois a tostada, acabei-a, e acendi mais um cigarro. Fui bebericando o café em pequenos goles.
Olhei o rafeiro, já dormia...

Wednesday, March 08, 2006

Som Seco

... que ainda hoje persistem, prova irrefutável da herança legada por esses homens de todas as vidas, aventuras, tristezas, maldições, alegrias e sofrimentos com lágrimas e bocejos que eu perpetuo nas minhas recordações no agora e para o sempre;
homens ainda capazes, com força, ainda dispostos para a luta que covarde lhes foge, nem a morte, nem a vida, nem nada, apenas a certeza de um punho fechado a bater na superfície sólida de um balcão de um pequeno café escondido na penumbra de uma rua estreita e semideserta onde a solidão escolheu a sua morada;
o som é seco, eleva-se no ar, viaja no tempo e perde-se nas recordações daquelas mentes cansadas, mas ninguém lhe presta atenção, o medo não habita aqui, testemunho petreficado de espanto, a violência é somente um hábito, faz parte, mecanismo de sobrevivência, arma primordial, irmã gemea da intelegência;
aqui, reflicto, nada é poético, tudo é brutal, fico feliz por assim o ser, estes homens amam o peso da sua terra e isso não pode ser poesia, estes homens amam a frescura da sua água, o cheiro do seu ar, a côr do seu mar, o gosto das suas mulheres, a inocência das suas crianças, o calor do seu sol, a profundidade das suas almas e tudo isso não pode ser poesia, apenas é o viver, simplicidade de pensamento, a fome era intensa, diária, um hábito, um prato de comida representava a alegria, a felicidade suprema, a eterna gratidão a esse Deus das igrejas;
é este o local onde residem os homens, os verdadeiros heróis das grandes narrativas, anónimas sombras que construíram este mundo, pilares inquebrantaveis que sustentaram o peso das gerações, artistas de inegável genialidade que pintaram, esculpiram e projectaram esta realidade, eles são o verdadeiro pulsar da vida, eles são tudo, ultrapassam a verdadeira existência, o mito, a lenda, eles são um povo, uma raça, últimos exemplares de uma humanidade quase perdida, e eu, eu não sou nada, e eu, eu não lhes pertenço...

Wednesday, March 01, 2006

Cigarros sem Filtro

.... que leva no seu íntimo a promessa de um paraíso distante onde a cada segundo é possível inalar o perfume de todas as liberdades, descreveu-me um estranho homem de dentes estragados, corpo sofrido e rosto cansado, foi para lá que eu fugi quando me deram a primeira precária, sussurrou-me no exacto momento em que me passava para a mão a razão do seu sustento, serás obrigado a andar umas horas, concluiu assumindo a expressão de um sábio, mas vale a pena, atirou assim que desaparecia no mistério de mais um negócio;
talvez encontre a salvação no corpo de uma mulher, pensei enquanto descia as íngremes e estreitas ruas dessa Cadiz histórica que se aperta num abraço de muralha, aqui o sol não nos banha, reflecti ao olhar para o interior das casas através das portas e janelas que se encontravam abertas para o exterior, muito facilmente poderia ser mais um cidadão deste Sul, assumi ao reconhecer todas as curvas, cruzamentos, edifícios e jardins dessa urbe de muitas histórias, também ela me reconhece, senti quando as suas gentes me olhavam com uma expressão cúmplice;
depois entrei num pequeno café onde somente homens velhos batidos pela vida descansavam sentados em velhas cadeiras forradas a napa vermelha bebericando com uns lábios trémulos o bordo de um copo de cerveja gelada, nos dedos fortes e ossudos de outros trabalhos a marca indelével da nicotina dos pequenos cigarros sem filtro que eram acesos uns atrás dos outros;
também eu pedi uma cerveja e a conversa, que tinha sido interrompida com a minha inusitada chegada, foi imediatamente retomada, falavam de quê, apurei o ouvido, de histórias de mar e de terra e de luta e de sangue e de conquista ou simplesmente de morte, falavam como se eu não fosse um corpo estranho, um forasteiro, um desconhecido, alguns sorriam na minha direcção no momento em que mais uma narrativa era terminada, buscavam a minha aprovação, depreendi, claro que aprovo, anui como resposta, que poderia eu fazer para além de mostrar a minha gratidão, no seio de velhos ansiões o meu conhecimento era minimo, quase inexistente, portanto cobri-me com o manto do silêncio, acendi um pequeno cigarro sem filtro, também nos meus dedos nasceram pequenas manchas de nicotina...