Novamente na Noite
Transpiro na noite cálida, quieta, coberta de silêncio. Sinto fome e por isso corro todas as ruas, becos e vielas à procura de onde possa comer. As minhas entranhas rulminam o espesso liquido em que se transformara a cerveja e uivam num desespero de morte.
A morte, deduzo electrificado pelos meus músculos que entretanto se retezam num espasmo, a morte chega-se-me pelas costas vinda através de um ruído de passos de muitos homens que caminham a mesma rua que eu caminho, que percorrem a mesma viela que eu percorro, que atravessam a mesma praça que eu atravesso. Num gesto lento e disfarçado levo a minha mão direita ao bolso traseiro das minhas calças e sinto a fina mas longa pretuberância da navalha que levava comigo.
Na noite quente e cálida como o útero de uma mulher ou noite quieta e silenciosa como o raciocínio de um morto tudo pode acontecer.
Na noite de uma cidade que me é estranha ou na noite de uma cidade que me estranha tudo é permitido.
Na noite de uma cidade que me é estranha ou na noite de uma cidade que me estranha tudo é permitido.
Decidido desço do passeio para a rua e bem no meio da recta de paralelípepedos estanco a marcha. Na noite limpa espero que se me aproxime o olhar altivo e sorriso desafiante de três adolescentes de tez escura e cabelo de caracois revoltos. Assim que passam por mim ouço o estampido dos seus passos a crescer no silêncio de tudo o que nos rodeia, testemunho a vaidade e orgulho que lhes enche o peito de homens já formados e percebo a segurança de quem já há muito venceu o medo.
Eles são apenas três e eu um só, por essa razão eles passam por mim incolumes para se perderam no emaranhado de um futuro desta cidade que se me apresenta vestida de noite, de tédio e de desprezo.
Eles são apenas três e eu um só, por essa razão eles passam por mim incolumes para se perderam no emaranhado de um futuro desta cidade que se me apresenta vestida de noite, de tédio e de desprezo.
Desiludido sigo o meu rumo para lugar nenhum. Paulatinamente o meu andar torna-se lento e entorpecido e a minha cabeça pesada e dorida fruto da viagem e da cerveja e do calor que me envolve como uma mortalha.
Do nada chegam-se-me cinco concludentes badaladas de um relógio de torre alta que me anunciava a noite já ida e a madrugada que se apresentava.
Exausto sento-me num dos degraus de uma longa escadaria de uma Catedral erguida a ouro transatlântico. Pedra sobre pedra a Igreja ergue-se num colosso ate a um céu negro de estrelas difusas e enfeitado por uma Lua quarto crescente que se abria na abobada celeste como um olho semi- cerrado.
Do nada chegam-se-me cinco concludentes badaladas de um relógio de torre alta que me anunciava a noite já ida e a madrugada que se apresentava.
Exausto sento-me num dos degraus de uma longa escadaria de uma Catedral erguida a ouro transatlântico. Pedra sobre pedra a Igreja ergue-se num colosso ate a um céu negro de estrelas difusas e enfeitado por uma Lua quarto crescente que se abria na abobada celeste como um olho semi- cerrado.
E os meus pensamentos ecoam pela noite e pela cidade e regressam-me com a força de uma revelação porque os livros a escrever e os caminhos a percorrer e as mulheres a amar sao uma projecção bem real, bem plausível, completamente exequível se ao menos eu fose alguém outro, um outro homem, com outras convicções, com outros valores e ideias e respeito pelo um talento que tarda em aparecer ou que mesmo nunca existiu.
Ansioso engulo em seco e a amargaosa da cerveja morna e morta chega-me ao palato vinda directamente das entranhas. Sofrego respiro fundo, uma, duas, três vezes até ter a certeza que o vómito foi vencido. Depois, mais calmo, enrolo um cigarro, cuidadosamente levo-o aos labios entreabertos até que o acendo.O fumo é tragado e expelido várias vezes; tantas ou as suficientes para que a minha cabeça se sinta a viajar num rodopio de expirais cada vez mais largas, cada vez mais longas, cada vez mais rápidas para subitamente acabarem na projecção de um vómito.
Descarrego-me em longas e espassadas descargas de líquido amarelo esverdiado morno azedo e ácido.Aquando completamente vazio sossego-me, vagarosamente afasto-me o mais possivel da peconha que no passado me enchia e sentado no outro extremo da escadaria da Igreja fecho os olhos e repouso a cabeca nos joelhos.
Descarrego-me em longas e espassadas descargas de líquido amarelo esverdiado morno azedo e ácido.Aquando completamente vazio sossego-me, vagarosamente afasto-me o mais possivel da peconha que no passado me enchia e sentado no outro extremo da escadaria da Igreja fecho os olhos e repouso a cabeca nos joelhos.
Das árvores e dos beirais e telhados das casas pequenos pardais de cor cinza e castanho acordam do seu sono nocturno para saudarem a alvorada porque a imensa bola de fogo acaba de nascer na linha do horizonte e o vermelho sangue da vida percorre todos os cantos deste lado do mundo.
Eu respiro a indecência e a doença contida em todos os poros e atmos e fibras e de tudo o que e meu e por isso sinto-me no fim de mim e no início de todos os caminhos a percorrer….